Quem engaja no programa de saúde é quem vai dar sinistro?
A literatura confirma um viés de seleção: quem mais precisa de cuidado tende a ser exatamente quem menos se engaja em programas de saúde corporativa.
Lucas Melo
Ortopedista, MD-PhD — CEO e co-fundador da Straloo
Quem engaja no programa de saúde da empresa é realmente quem vai dar sinistro?
Foi o que um gestor experiente de saúde corporativa me provocou numa conversa recente. Ele chamou de viés de seleção. E fui visitar a literatura para entender se havia base técnica por trás da intuição. Havia.
Em 2019, o Illinois Workplace Wellness Study publicou um ensaio clínico randomizado com quase 5.000 funcionários.
O achado sobre quem participa foi claro:
No período anterior à intervenção, quem participou do programa tinha gastos médicos menores do que quem não participou
Os participantes tinham comportamentos de saúde mais saudáveis antes mesmo de entrar no programa
Esse padrão se manteve mesmo com randomização e incentivos financeiros para participar
Outro estudo descritivo com 23.667 funcionários no Reino Unido (JOEM, 2021) mostrou o mesmo por outro ângulo: funcionários com maiores fatores de risco eram justamente os menos propensos a participar das intervenções direcionadas ao problema de saúde que eles tinham.
Muitas vezes, o trabalhador que vai dar sinistro/afastamento nos próximos 6 meses não abre app. Não responde questionário. Não aparece na atividade.
Ele vai trabalhar com dor, sem comunicar.
E talvez isso seja inerente ao comportamento humano. Quem já tem autocuidado alto tende a responder a estímulos de saúde. Quem mais precisa tende a ser justamente quem menos acessa.
Fica a indagação: será que estamos usando engajamento como métrica de vaidade de um programa quando a questão real é outra, a capacidade de identificar quem é de maior risco e, de fato, envolver essa população?