Caso real: o pacote estava perfeito. A indicação, não.
Artroscopia autorizada de forma automática em artrose de joelho mostra o que falta nos planos de saúde: uma camada de governança clínica sobre a indicação.
Lucas Melo
Ortopedista, MD-PhD — CEO e co-fundador da Straloo
Caso real: o "pacote" estava perfeito. A indicação, não.
50 anos, artrose no joelho, artroscopia autorizada automaticamente.
Quando o caso chegou até nós, a cirurgia já estava marcada. Códigos corretos, materiais dentro do protocolo, autorização automática pelo plano de saúde.
Na avaliação: artrose inicial de joelho com lesão meniscal degenerativa, sem conflito mecânico. Sem nenhum tratamento conservador prévio. Nenhuma sessão de fisioterapia, nenhum protocolo de fortalecimento.
Isso acontece com frequência. E tem base técnica sólida para mudar.
O que a literatura diz sobre meniscectomia parcial artroscópica em lesões degenerativas:
Sihvonen et al. (NEJM, 2013): meniscectomia parcial não foi superior a cirurgia simulada em roturas meniscais degenerativas
Katz et al. (NEJM, 2013): meniscectomia não foi superior à fisioterapia em pacientes com rotura meniscal e osteoartrite
Sharma (NEJM, 2021): recomendação contra meniscectomia parcial artroscópica em quase todos os pacientes com osteoartrite, com exceção de bloqueio mecânico objetivo
Não estou dizendo que artroscopia não tem indicação. Tem, e em casos precisos faz diferença real. Esses casos de artrose em pacientes mais jovens são desafiadores!
Esse paciente está há quase dois meses no pós-operatório sem melhora clínica.
A minha principal provocação neste caso é que não basta só seguir o protocolo de autorização. Precisamos ter critérios clínicos bem definidos, não tratar só o laudo da ressonância.
O problema não foi o pacote. Foi a ausência de uma camada de governança clínica sobre a indicação.
Pacote correto não é o mesmo que indicação correta.